domingo, 23 de abril de 2017

Esquecer/Repetir/Estilo

Esquecer/Repetir/Estilo



      Cercar o conceito de repetição é ao mesmo tempo mapear o que vem a ser o conceito, e tratar do desenvolvimento da clínica psicanalítica. Desfazer seus traços e desligamentos com início histérico da prática hipnótica. Como aponta Cabas (2009), o fenômeno da repetição “... trata-se de decifrar um fenômeno clínico que tem conseqüências teóricas e ressonâncias epistêmicas” (p.74). Cercar na possibilidade de percorrer o caminho de Freud perante a criação do conceito como um fenômeno explicitado na clínica, e não na totalização das possibilidades de suas ligações, que podem ser diversas. Tentarei, no entanto, ligar a repetição com a ideia de estilo. Pensar que o estilo diz sobre uma repetição; seja a formação de uma cidade e seus habitantes ao ocuparem o seu espaço, seja na produção de um texto ou na fala, e porque não na experiência estética. 

     E porque não o estilo da transmissão psicanalítica? Qual seria o estilo goiano de transmitir e se apropriar da psicanálise? Saindo do condado de Goiânia, na busca da escuta e desejo de saber sobre a psicanálise. Há em outros espaços uma transmissão outra? Era de se esperar um estilo de cada região na forma de transmitir e produzir o conhecimento psicanalítico.
          Foi agradável perceber que cada lugar se coloca em sua repetição, mas que gira os significantes diferentemente. Repetem-se nos seus próprios umbigos do sonho, um sonho a vir a ser Viena, ou quem sabe uma Paris. Repetindo um espaço propenso para o surgimento do sujeito do inconsciente, possibilitando pensar uma psicanálise próxima, mas que ao mesmo tempo repita a de Freud e a de Lacan; não nos seus estilos, mas sim nos seus fundamentos, louco isso! Como repetir sem copiar?
           Na abertura da coletânea dos Escritos, Lacan repete uma frase de Buffon: “O estilo é o próprio homem”. Mesmo afirmando que definir o que o homem pode trazer vários problemas teoricamente. Lacan endereça o estilo ao sujeito do inconsciente, estruturado pela linguagem. Portanto, o estilo refere-se ao inconsciente, que se estrutura na falta causadora de desejo, falta dada por uma relação simbiótica perdida. Desta forma, um estilo é direcionado a Outro, que não faz a relação sexual em finitude, não vai completar o sujeito, permitindo assim a dúvida e a busca do saber. 

          É possível afirmar que o estilo é o sujeito que deseja saber. Como o desejo implica um outro na relação. Ao convidar a leitura e expor seu estilo Lacan (1966), chama o leitor para o trabalho singular no trajeto de seus textos: “Queremos, com o percurso de que estes textos são os marcos e com o estilo que seu endereçamento impõe, levar o leitor a uma conseqüência em que ele precise colocar algo de si”. Para colocar algo de si, temos que repetir, nem que seja com outras palavras, já que repetir não é somente reencontro, ou refazer a mesma coisa ou do mesmo jeito, e sim ser capaz de estruturar e se enlaçar num pensamento. Há possibilidade de dar forma, de se inscrever na falta com estilo.
         Para Cabas (2009), "O sujeito na psicanálise de Freud a Lacan", o sujeito freudiano necessariamente se torna sujeito pela condição de poder repetir, não apenas reproduzir uma mesma situação, mas sim algo que retoma e constitui o sujeito. “... o imperativo da repetição incide no processo da constituição subjetiva e é determinante na consolidação da posição do sujeito”. A respeito da repetição, Cabas (2009) ressalta a necessidade de diferenciar suas duas formas: a repetição inconsciente e a compulsão a repetição. A segunda forma trata de um imperativo pulsional, de uma repetição não direcionada que busca no ato refazer algum laço simbólico. Já a repetição inconsciente para Cabas é um fenômeno que se objetiva, é o limite do progresso da cadeia associativa, tal livre associação:
Só vai até o ponto em que as cadeias associativas tomam a configuração de uma trama que envolve um conjunto de relação simbólica. Por sinal, profundamente solidárias ao conjunto das preocupações do sujeito. Seja como for, o certo é que, em um dado momento, as associações ideativas iniciam um curso inverso: os fios associativos cessam de expandir-se e começam a confluir em um ponto único (Cabas 2009, p.78).
          Este ponto único, plausivelmente ligado com o eterno retorno de Nietzche, é onde o trabalho atinge o seu máximo, até onde é capaz de dizer do real, não tendo outra opção senão repetir na foram de um ritornello, como mera repetência, “um ponto cego que não remete a nada mais senão a si próprio”. Lacan pega emprestado o conceitos de autômaton de Aristóteles, essa insistência dos signos comandados pelo princípio de prazer, mas que no máximo se repete envolta no limite do simbólico, repete no umbigo do sonho.
         O umbigo no qual o significante roda. Há um ponto para além do simbólico, mas que ainda demanda uma exigência pulsional, abrindo espaço para a compulsão a repetir, por não estar ligado a nada que o simbolize. Nesse nível de repetição não simbólica, não está situado no nível da elaboração, não conseguindo ir além da fala elaborada do analisando. Já a repetição  que está no nível da tique, que ultrapassa o princípio do prazer, e se depara com o real, com o “não pensar” (Fink 1997), e sim com o saber próprio do inconsciente.
         O surgimento do fenômeno da repetição, como um dos quatros conceitos básicos da psicanálise, só foi possível pela persistência freudiana na eficácia de uma clínica até então objetivada numa idéia de cura, “tornar consciente o que é inconsciente”.
          No ato de Freud de refletir sua clínica perante o imperativo do real, “Freud avança sustentado por certa relação a seu desejo e pelo que é seu ato, isto é, constituição da psicanálise”(Lacan,pg 53). Repensar o que se apresenta na sua clínica diante das frustrações de suas interpretações. Portanto a repetição é uma questão que se apresenta no erro de dois métodos anteriores.
              No texto de 1914, "Recordar, repetir e elaborar", Freud retoma a primeira fase do que viria a ser o método psicanalítico: a hipnose e a catarse, possibilitando o paciente recordar e ab-reagir no estado hipnótico, porem a eficácia deste recordar não permanecia no despertar. Aparentemente o recordar servia para fundamentar a interpretação do analista, que ate então não contava com o manejo da transferência, se servindo preguiçosamente de reconhecer a gênese do sintoma do paciente, sem se haver com o “torna consciente”. Mas na busca de um método mais eficaz, numa segunda fase do tratamento, Freud abandona a hipnose e a troca pela associação livre, pra descobrir na falha o que o analisando deixava de recordar. Inicia um trabalho da interpretação contornando a resistência. Para Freud, tal técnica sistemática mantinha um objetivo bem claro, ele descrevia como uma forma “... de preencher lacunas na memória, dinamicamente, é superar resistências devidas à repressão.”
              Todavia, Freud não nega a importância do método hipnótico para chegar ao método psicanalítico, ao se confrontar com seus erros seu ato possibilitou criar a psicanálise, e faz bem ao mostrar os passos tomados e a importância dos tombos levados, isso diz de um estilo do Freud, sempre retomando dos seus tombos. Ate então, a pergunta que intriga seu tratamento é como recordar e a melhor maneira de obter o que não se quer lembrar? Ao mesmo tempo como expor para o analisando o que ele não quer lembra? Parecia que ao interpretar as resistências viria à tona, sem sugestão, todas as lembranças. Mas o esquecer que era tão normal, aparentava para a histérica que o tempo parava.
             No texto de 1914, o que se repete, até então, é a condição do sujeito de se organizar, para Freud o paciente “... repete tudo o que já avançou a partir das fontes do reprimido para sua personalidade manifesta.” Portanto repete também os seus sintomas, no processo do tratamento analítico, se inscreve com seu estilo na clínica.
                A possibilidade de estrutura o possibilita repetir ao mesmo tempo o fato de repetir o possibilita estruturar a pulsão a uma compulsão em linguagem. Essa repetição ligada ao princípio do prazer se apresenta como possibilidade mais fácil de pensar o estilo é o que nele repete, seria o limite de dizer do real que se repete no estilo. O estilo que não esquece, ele mantém o tempo do inconsciente se escrevendo no real. Na escrita, principalmente, reflete o limite do dizer do sujeito, não pondo algo além da sua capacidade de simbolizar o real.
                Mas no âmbito da tique, o estilo pode repetir-se não apenas no pensar, um estilo esquecido até então não contornado e controlado pelo pensamento. Algo próximo da escrita intensa de William Burroughs e Henry Miller. Miller desejava uma máquina de escrever que digitasse na velocidade de suas idéias, desta forma não esquecer nada que lhe vinha à cabeça, o primeiro ditava que toda forma de racionalização compromete o estilo livre. Já Lúcio Cardoso, que escrevia compulsivamente, uma vez afirmou que com tamanha carga interior se não fosse escritor, seria assassino ou um louco. Quando um acidente vascular cerebral o impediu de continuar escrevendo, tornou-se pintor.
             O que prova que a escrita e a loucura não era o fator ligante em sua produção, como provavelmente era nos outros dois escritores citados. Lúcio passou a falar em imagens o que já não podia escrever em palavras, manteve a repetir o gesto de repetir o seu estilo, sua capacidade de simbolizar o mundo, o importante era poder repetir.
           Voltando à questão ambígua de Goiânia, que assim como a pulsão está entre dois lugares, entre um estilo provinciano e um espírito cosmopolita. Que parte do autômaton está inscrito na transmissão da psicanálise da cidade, e que tique rodeia essa compulsão de buscar lá fora o saber e muitas vezes, conseqüentemente, um estilo importado? Será que há uma compulsão a repetição por um objeto perdido? Quem sabe esse objeto que completava, respondia e ditava o nosso estilo não é reminiscências dos bandeirantes. O fato de escrever nessa primeira jornada é um importante inicio de repetição, autômaton, de elaboração de não esquecimento com o compromisso com o desejo de saber do Inconsciente. E de compulsivamente não saber onde isso vai dar, ainda, apenas repetir para organizar um estilo.
Bibliografia:
ARRIVÉ, M.Linguagem e psicanálise, lingüística e inconsciente: Freud, Saussure, Pichon, Lacan. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999
BURROUGHS, W. S. Almoço nu.Coleção: Circo de Letras. Ed. Brasiliense s.a. : São Paulo. 1984.
CABAS, A. G.  O sujeito na psicanálise de Freud a Lacan: da questão do sujeito ao sujeito em questão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009
CARDOSO. L. Crônica da casa assassinada.12° edição – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.
FINK, B. A causa real da repetição. em: Para ler o Seminário 11 de Lacan: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise/ Richard Feldstein, Bruce Fink, Maire Jaanus 9orgs.)-Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.
FREUD, S. Recordar, repetir e elaborar ( Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise II). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. -Rio de Janeiro: Imago: 1996.
LACAN, J. Escritos. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
________. Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.
MILLER, H. Trópico de câncer. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

*texto de Hélio Neiva. Apresentado no primeiro módulo da formação básica e cheia de devir, do que vinha a ser o corpo freudiano de Goiânia, com a presença do querido Marco Antonio Coutinho Jorge

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Deus é o Inconsciente, Desejo é o Diabo. Para Exú a pulsão

Deus é o Inconsciente, Desejo é o Diabo. Para Exú a pulsão

  Uma vez me disseram que num lugar Lacan afirmou que o Inconsciente é Deus, com um bom medroso me horrorizei diante de tal afirmação. Será que o francês queria dizer que o inconsciente é onipresente e existia antes de mim? E para piorar, ao mesmo tempo estava em mim, quer eu queira acreditar ou não nele? Pois é o inconsciente o que não se apreende. Não se pode apontar seu tempo e espaço e assim reproduzi-lo. Mas se presentifica em suas formações, muitas vezes mais como horror do que em milagres. Principalmente para aqueles que não querem saber disso, que não querem escutar o Isso. O inconsciente se apresenta em sonhos, atos falhos, lapsos e chistes, ou seja, em linguagem. Falou dançou, ou no ritmo ou fora dele, isto é, mesmo não querendo saber disso o Isso a de persistir.


  O Isso (uma forma econômica para falar do Inconsciente e até mais sonora) atravessa qualquer ser falante, basta que alguém escute o atravessamento para descobrir que o que deseja nem sempre é isso. Por isso o inconsciente é um terceiro atemporal, não segue uma hora da consciência para se apresentar. A psicanálise no máximo existe para escutar suas apresentações na fala,  que escapa da maldita controlada razão da consciência. Mas o que escapa, e escapa de quem em?

  O que escapa é um conteúdo até então recalcado. Freud foi experto ao chamar o recalque de pedra angular da psicanálise. O que me faz lembrar uma gangorra que se balança num ponto fixo, que por mais que se tente na brincadeira um equilibro, alguém vai dar com a bunda no chão para o outro seguir nas alturas. O recalque seria uma promessa de um equilíbrio que falha. Seguindo Deus é o inconsciente, o recalque seria uma espécie metafórica de São Pedro na porta do céu, que tenta garantir que o que faz o mau, o mau-dito que provoca mal-estar, não passe pela porta. O conteúdo e as memórias passem somente de forma disfarçada, quase como anjos. Como se a memória e a história do sujeito falante não houvesse sexualidade, tudo limpo e organizado pelo "bem é os bens" da cultura. Mas mesmo disfarçados os anjos pecam, principalmente porque tem um primeiro que caiu e se mostro no sexo. O que chega a outra afirmativa lacaniana: O diabo é o desejo. 

  As parideiras da psicanálise (as histéricas) com  o criador dela (Freud), já afirmavam o Isso e suas relações diabólicas. Na história da histeria, seus sintomas e seus apontamentos da verdade, falava de um desejo e da sexualidade. Que ao longo da civilização muitos não queriam saber, o que muitas vezes tais sintomas serem nomeados de bruxaria, que fazem um pacto com o diabo e depois sofrem pois fica a pergunta: O que querem de mim? Histéricas que fizeram pacto com o desejo, pois haveria uma força maior que a cultura que quebrava as regras da moral cristã. 

  Mas que força é essa que não para de rebater na porta de São Pedro? Algo que escapa na fala do sujeito mostra sua sexualidade que cutuca o desejo. Porque por mais que "Deus o tenha " alguma coisa falta. O que será? Essa força constante que procura satisfação, mas nunca fica satisfeita, chicoteando o recalque? Isto é Pulsão.  

  Freud em uma de suas conferências chamou ela de a mitologia da psicanálise, por dizer de uma origem humana longe da higiênica e pecadora gênese da bíblia. Portanto não lhe cabe em uma metáfora cristã, pois a origem cheira mal, não está tampada no sexo de Adão e Eva. Num chiste em homenagem a psicanálise brasileira diria que Exú é a Pulsão.

  Na historia oral de Exú, passado pelas religiões afro descendente, ele é o primeiro filho no qual tudo levava a boca e nunca estava satisfeito. Até que sobrará apenas sua mãe para ser engolida pro ele. Antes de ser devorada pelo próprio filho ocorre a interdição da facada do pai. Exú é aquele que carrega um falo e uma faca na cabeça posta por seu pai como um interdito. Assim Exú não luta com armas como outros Orixás, ele se utiliza da palavra que se faz em sua boca, ele recebe oferendas e assim invoca outros orixás. É o mais humano entre os Orixás, pois tem uma força constante, insaciável que nunca fica preso a um único objeto de satisfação. Ele é o que abre caminho de uma vida do instinto animal para a bipedia, pois é a porta verticalizada de uma vida em constante pulsação. 

  O que queres de Exú? Tudo aquilo que vier a boca, mesmo que sejam as palavras ao invés dos objetos de compulsão. É por ele que se pode escutar a estrutura em linguagem de Deus ao Diabo, é a força entre o Céu e o Inferno. Fomando assim uma das formas de nomear a tríade psicanalítica: Deus/Exu/Diabo, ou Real/Simbólico/Imaginário, ou Morte/Sexo/Origem.

Hélio Neiva

A interpretação a altura do Sujeito lacaniano

O sujeito lacaniano é herdeiro de restos, restos do sujeito da filosofia e da ciência por exemplo. O sujeito da filosofia em sua bus...