quarta-feira, 19 de abril de 2017

Deus é o Inconsciente, Desejo é o Diabo. Para Exú a pulsão

Deus é o Inconsciente, Desejo é o Diabo. Para Exú a pulsão

  Uma vez me disseram que num lugar Lacan afirmou que o Inconsciente é Deus, com um bom medroso me horrorizei diante de tal afirmação. Será que o francês queria dizer que o inconsciente é onipresente e existia antes de mim? E para piorar, ao mesmo tempo estava em mim, quer eu queira acreditar ou não nele? Pois é o inconsciente o que não se apreende. Não se pode apontar seu tempo e espaço e assim reproduzi-lo. Mas se presentifica em suas formações, muitas vezes mais como horror do que em milagres. Principalmente para aqueles que não querem saber disso, que não querem escutar o Isso. O inconsciente se apresenta em sonhos, atos falhos, lapsos e chistes, ou seja, em linguagem. Falou dançou, ou no ritmo ou fora dele, isto é, mesmo não querendo saber disso o Isso a de persistir.


  O Isso (uma forma econômica para falar do Inconsciente e até mais sonora) atravessa qualquer ser falante, basta que alguém escute o atravessamento para descobrir que o que deseja nem sempre é isso. Por isso o inconsciente é um terceiro atemporal, não segue uma hora da consciência para se apresentar. A psicanálise no máximo existe para escutar suas apresentações na fala,  que escapa da maldita controlada razão da consciência. Mas o que escapa, e escapa de quem em?

  O que escapa é um conteúdo até então recalcado. Freud foi experto ao chamar o recalque de pedra angular da psicanálise. O que me faz lembrar uma gangorra que se balança num ponto fixo, que por mais que se tente na brincadeira um equilibro, alguém vai dar com a bunda no chão para o outro seguir nas alturas. O recalque seria uma promessa de um equilíbrio que falha. Seguindo Deus é o inconsciente, o recalque seria uma espécie metafórica de São Pedro na porta do céu, que tenta garantir que o que faz o mau, o mau-dito que provoca mal-estar, não passe pela porta. O conteúdo e as memórias passem somente de forma disfarçada, quase como anjos. Como se a memória e a história do sujeito falante não houvesse sexualidade, tudo limpo e organizado pelo "bem é os bens" da cultura. Mas mesmo disfarçados os anjos pecam, principalmente porque tem um primeiro que caiu e se mostro no sexo. O que chega a outra afirmativa lacaniana: O diabo é o desejo. 

  As parideiras da psicanálise (as histéricas) com  o criador dela (Freud), já afirmavam o Isso e suas relações diabólicas. Na história da histeria, seus sintomas e seus apontamentos da verdade, falava de um desejo e da sexualidade. Que ao longo da civilização muitos não queriam saber, o que muitas vezes tais sintomas serem nomeados de bruxaria, que fazem um pacto com o diabo e depois sofrem pois fica a pergunta: O que querem de mim? Histéricas que fizeram pacto com o desejo, pois haveria uma força maior que a cultura que quebrava as regras da moral cristã. 

  Mas que força é essa que não para de rebater na porta de São Pedro? Algo que escapa na fala do sujeito mostra sua sexualidade que cutuca o desejo. Porque por mais que "Deus o tenha " alguma coisa falta. O que será? Essa força constante que procura satisfação, mas nunca fica satisfeita, chicoteando o recalque? Isto é Pulsão.  

  Freud em uma de suas conferências chamou ela de a mitologia da psicanálise, por dizer de uma origem humana longe da higiênica e pecadora gênese da bíblia. Portanto não lhe cabe em uma metáfora cristã, pois a origem cheira mal, não está tampada no sexo de Adão e Eva. Num chiste em homenagem a psicanálise brasileira diria que Exú é a Pulsão.

  Na historia oral de Exú, passado pelas religiões afro descendente, ele é o primeiro filho no qual tudo levava a boca e nunca estava satisfeito. Até que sobrará apenas sua mãe para ser engolida pro ele. Antes de ser devorada pelo próprio filho ocorre a interdição da facada do pai. Exú é aquele que carrega um falo e uma faca na cabeça posta por seu pai como um interdito. Assim Exú não luta com armas como outros Orixás, ele se utiliza da palavra que se faz em sua boca, ele recebe oferendas e assim invoca outros orixás. É o mais humano entre os Orixás, pois tem uma força constante, insaciável que nunca fica preso a um único objeto de satisfação. Ele é o que abre caminho de uma vida do instinto animal para a bipedia, pois é a porta verticalizada de uma vida em constante pulsação. 

  O que queres de Exú? Tudo aquilo que vier a boca, mesmo que sejam as palavras ao invés dos objetos de compulsão. É por ele que se pode escutar a estrutura em linguagem de Deus ao Diabo, é a força entre o Céu e o Inferno. Fomando assim uma das formas de nomear a tríade psicanalítica: Deus/Exu/Diabo, ou Real/Simbólico/Imaginário, ou Morte/Sexo/Origem.

Hélio Neiva

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