sábado, 3 de junho de 2017

A interpretação a altura do Sujeito lacaniano




O sujeito lacaniano é herdeiro de restos, restos do sujeito da filosofia e da ciência por exemplo. O sujeito da filosofia em sua busca de se interessar “por aquilo que todo mundo está interessado sem saber” (p. 807, subversão do sujeito e a dialética do desejo no inconsciente freudiano) faz parir, e como Lacan afirma, faz também abortar campos do saber. Uma de suas filhas, é a imperativa ciência, um sujeito que goza da empiria.

O sujeito da ciência é um sujeito empírico que falha, lá onde não se tem (com)sciência a psicanálise há de advir. A Imperatriz ciência, pela lei de um sujeito que deve saber o que faz, para repetir e distribuir o saber na promessa de nunca se esquecer, não é um sujeito que lida com a fronteira. A ciência quer um espaço para marcar terreno na exclusão. O que vai dar num belo casamento com o Império do Capital. O sujeito da ciência em replicar um empirismo, descartando a singularidade de uma experiência, casa com o mais gozar do mercado. Mercado que paradoxalmente vende para tamponar a falta que pede mais, e assim silencia a dúvida.

A mãe filosofia tem outras crias, há uma possibilidade até de querer saber da linguagem, o que vai permitir Lacan se virar para o sujeito do inconsciente. Um sujeito que implica incialmente um não querer saber, todavia na fala revela a mensagem do desejo. Passagem para querer saber fazer com o imprevisto da experiência numa análise, no lugar do imperativo da empiria cientifica.

Há uma herança do sujeito da psicanálise, principalmente do equívoco e das impurezas que a ciência e a filosofia não queria escutar. Para receber o significante que lhe pertence o sujeito deve ser escutado por uma lógica outra. Sujeito dividido apresenta uma outra cena, um saber que não comporta em um conhecimento datado, mas sim uma experiência não contida em livros, apesar de passar pela letra. Se há um ensino de Lacan sobre o campo freudiano, esse ensino passa pelo que suporta uma transmissão de uma análise. O sujeito lacaniano é herdeiro da cisão do Eu freudiano labuzado em palavras antitéticas.

A aposta do sujeito lacaniano é um casamento do campo freudiano; os chistes, os sonhos, os atos falhos com um excremento da linguagem, a ciência de Saussure deixa um resto que reverbera na escuta de Lacan sobre o falasser. O sujeito lacaniano advém da cadeia de significantes que lhe pariu. Numa análise o sujeito é dirigido a se haver com os significantes que te deram, herdar com propriedade a saliva da lambida, um significante apresenta o sujeito para outro significante.

Mas porque insistir na pronuncia “sujeito lacaniano”, no lugar de falar sujeito do inconsciente, ou sujeito para a psicanálise, ou sujeito freudiano? O sujeito é do inconsciente, estruturado como uma linguagem, marca uma diferença clínica. A Aposta desta estrutura subverte a direção do tratamento. O sujeito lacaniano implica numa interpretação outra, de outra cena, e outra lógica.

Tal escuta é herdeira de uma posição subversiva perante a mesmice e controle de fronteiras da prática psicanalítica dos pós freudianos, dos herdeiros explícitos de tempo cronológico angustiados pela cura, o mau dito furor sanante.  A escuta da subversão do sujeito da psicanalise só foi possível devido a inquietude do sujeito Lacan. Ele não cedeu o seu desejo de analista, para escutar a altura dos significantes do sujeito falante.
         
          A prática de uma clínica diz da reverberação de uma lida e de como lidar com a teoria. O que se chama paradoxalmente de técnica psicanalítica, que encontra apenas uma regra; a equalização de causa e efeitos da associação livre e a escuta flutuante. Não ocorre de flutuar mais do que a capacidade de associação, uma é um só depois da outra e nem de uma pratica empírica que se repete sem se implicar. Há sim uma transmissão de uma experiência, escuta o sujeito que foi escutado.
         
         Esse jogo da regra fundamental cabe ao psicanalista tocar e ser tocado pela fala. Análise como uma experiência de fazer o outro se escutar, topar o enquadre, o material da fala, isto é a linguagem para apostar também chegar até o seu ruído (A instancia da letra no inconsciente). O inconsciente como letra igualado ao significante até a sua lalação, a aposta numa musicalidade. Aqui o jogo de interpretação ocorre entre o sintoma e o desejo, seria um o só depois do outro?
         
           No seminário 18 sobre o Semblante, Lacan já sugeria para não ocorrer a prevalência da letra sobre o significante, da metonímia pela metáfora. Como se uma análise só ocorre pela interpretação da letra sem o acolhimento das palavras, e muitas vezes da pobre metáfora do sujeito em questão, para chegar o ruído há espaço para se enjoar de escutar a melosa melodia que nas brechas aponta o sujeito. Isso já é a velha dica de que não há interpretação sem transferência.

     Vale a crítica de Lacan a interpretação de Perelman a metáfora aristotélica sobre ao anoitecer igualado a velhice do homem. No apêndice II dos escritos intitulado de A metáfora do Sujeito, Lacan afirma que “apontar a desorganização constitutiva de qualquer enunciação não é tudo” (p.906), não só por mostrar o recalque “do que há de mais desagradável na metáfora” (p.906), mas também por fechar o sentido, trocar um pelo outro, calando a boca da metáfora.

 Responder o enigma da esfinge sobre uma escuta metafórica é manter o sintoma, Édipo responde ao seu sintoma de morte de envelhecer da bipedia e ficar em estado tripé. Responder ao enigma da esfinge pela interpretação metafórica lhe deixa surdo aos apontamentos metonímicos do oráculo para o desejo. A metáfora faz uma substituição, numa negativa do próprio sintoma, do que pode advir o desejo.
  
   No mesmo Apêndice II há um a indicação da direção da escuta do sujeito em seu deslocamentos da linguagem o papel da metonímia de suporte do desejo, só pode ser escutado, ou abarcado pelo suporte da metáfora. Ou seja o sujeito quando afirma “Eu minto” é de uma verdade legitima para uma condução do desejo que não entra na escuta das ciências.
        
       O sujeito nasce não é aquele em que o discurso se enuncia, mais precisamente naquele que escuta. A interpretação está mais para causar efeitos de escuta no outro tempo do enunciado. Associar e flutuar para fazer o falta-ser falar mais. Por isso não cabe um jogo de metáfora para metáfora, a metáfora do sujeito com uma escuta que retorna com outra metáfora não abre o sentido.
  
Cabe a interpretação acolher e questionar; uma virgula, uma diferença sonora de entonação, fazem o deslocamento e questionar ao sujeito o que fazer com os significantes que lhe deram. Se eles fazem questão ou desloca para outra letra, outro litoral. Lembrando que não é a interpretação literal em análise mas litoral, entre encontros de território. O sujeito lacaniano é litoral, do ritmo a melodia do que uma dia lhe falaram e falhou, esburacou para um dia quem sabe bem dizer o sintoma.
          
       Se ler os seus Escritos Lacan adverte para os leitores darem algo de si, passar próximo da experiência da análise, não há como acumular lacanes e sobreviver, lacanes no mínimo dá numa sobre vida. Se Lacan tem francafonia, o que resta de sua transmissão seria apenas traduzir, ou também cabe criar?
   
A interpretação a altura do sujeito, passa pela altura da língua as fonias do português é necessária fazerem falar a psicanalise, ela falar fonicamente a língua terrena. Lituraterra é uma regra de encontros e desencontros da tarnslingua do inconsciente. Que sujeito é o leitor de Lacan? Aquele que faz das tripas o coração? Nessa metáfora ao pé da letra, da barra do sujeito barrado, esbarra litoralmente dar algo de si na travessia dos escritos falantes de Lacan. Algo de uma passagem da escrita franca (Lacan francês) entre saber e verdade, para um português transcriado. Lemos com Lacan e sem ele Gide-moedeiros falsos, Sade e Joyce, mas Lacan não leu nossos Guimaraes. Barros, Cacasio, Cardoso, e Andrades.



*Trabalho apresentado no congresso da UERJ em novembro de 2016 sobre os 50 anos dos Escritos de Lacan
EIXO TEMATICO: O sujeito lacaniano
AUTOR: Hélio H. Q. Neiva ( Membro da Fazenda Freudiana de Goiânia, mestrado em Psicologia Clínica e Cultura pela UNB. Email: neivahelio@gmail.com )

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